Romance Parisiense

sábado, 22 de Agosto de 2009


Primeira badalada…
De mãos entrelaçadas como punhal que crava na pele, lançamo-nos até ao deslumbrante cume dos nossos sentidos.

Segunda badalada…

Iniciamos a nossa viagem com rumo ao Luar que nos tem adormecido noite após noite.

Terceira badalada...

Do alto, avistamos a cidade repleta de luzes, as luzes que espelham todos os momentos passados num colérico romance.

Quarta badalada…

Pela minha frente, admiras toda a paisagem sublime que outrora serviu de berço das nossas fantasias.

Quinta badalada…

Absorvo o aroma do teu cabelo numa breve brisa noctívaga…

Sexta badalada…

Corvos que acompanham a sedução dos nossos corpos…

Sétima badalada…

Lábios húmidos e atormentados que acompanham a corrente sanguinária do teu pescoço…

Oitava badalada…

Dedos que dançam pela tua face, que descem pela estrada do desejo…

Nona badalada…
Sustenho a respiração e consumo o orgasmo poético que te percorre as veias…

Décima badalada…
Silêncio…

Décima Primeira badalada…

Sorriso…

Décima Segunda badalada…
Apago as estrelas e embriago-te no seio da noite...

Vampyyri de Lönratt

Lua de Sangue

sexta-feira, 31 de Julho de 2009


Nunca pedi que me seguisses. No entanto, a tua vida era seguir os meus passos, encontrar-me e deixar-me fugir. Não podias fazer nada porque a tua condição frágil não o permitia e mesmo que alguma vez te quisesse do meu lado não o podia fazer. Mundos diferentes, apetites diferentes. Mas naquela noite passou-se qualquer coisa que nunca deveria ter acontecido.

Estávamos em pleno Outubro, as noites ainda eram amenas, mas já começava a sentir na pele o toque do frio gelado. Caçar era sem dúvida um dos meus passatempos favoritos. Quando temos a eternidade não existe pressa e poucas vezes existem objectivos concretos. Tudo o que eu sempre quis foi divertir-me, só a morte não é divertida. Mesmo que ainda me reste algo de humano, são os instintos e o chamamento do sangue que me guiam. Não sou Sangue-Puro, sou fruto de uma infracção à lei dos vampiros, é estritamente proibido os Sangue-Puro transformarem humanos. No entanto, ele dizia-se demasiado fascinado, demasiado esfomeado e isso custou-lhe a imortalidade. Fui condenada a vaguear sozinha sem o meu mestre. A sobreviver na morte, a aguentar a dolorosa transformação do meu corpo consumido pelos vermes devoradores de alma. A arrastar-me pelos becos e a ter que matar sem saber muito bem como se fazia.

Depois começaste a perseguir-me. A procurar-me, a assistir à maneira como matava todas as minhas vítimas. Sabia que sempre estiveste escondido em cada uma das minhas caçadas e por pouco também eras uma delas.

Estava a escurecer bastante depressa. A lua de sangue começava a revelar-se e eu conhecia bem o que significava. A última colheita do ano, o sacrifício humano. Naquela noite o laço que ligava os mortos e os vivos não podia ser mais forte e nós provámos isso mesmo.

Ainda estava em casa quando ouvi os teus passos apressados na rua. Conhecia perfeitamente o impacto das tuas botas na calçada. Senti o teu cheiro a perfume tão próximo. Apenas achei estranho que tivesses vindo enfiar-te na boca do lobo tão rapidamente. Olhei para a janela:

“Queres brincar às escondidas?” – Disse em tom de brincadeira.

Aproximei-me da janela e puxei o cortinado com tanta força que o arranquei. Ali estavas tu, encostado à parede, com os olhos serenamente pousados em mim. Nunca tiveste medo de te aproximares demasiado.

“O que queres de mim? Ser apenas mais vítima na minha lista de mortes ou será que me vens pedir a eternidade?”

Não sei porque decidi perguntar tudo aquilo, mas se tivesse vontade de o matar, não haveria conversa. Era estranho como naquela noite, poderias ter simplesmente ido embora porque teria permitido. Não me apetecia lutar contigo e muito menos fazer-te desaparecer. Não compreendia porquê mas era isso que sentia.

“Desculpa…” – Disseste-o de modo tão sincero que assim que saltaste pela janela não consegui impedir-me de ir atrás.

“Espera.” – Não sei se sussurrei ou se gritei, mas paraste imediatamente e olhaste para trás. A noite estava a tornar-se breu e a lua estava a ceder-nos cada vez menos luz.

Não sei ao certo o que me apetecia dizer-te. Ou se me apetecia dizer-te alguma coisa de facto. Mas tu não hesitaste em abraçar-me mesmo sabendo que bastaria um movimento mais brusco e estarias no chão. Passavas a mão suavemente pelos meus cabelos. Eu não queria que me abraçasses, estava a sentir-me terrivelmente frágil.

Com a cabeça no teu peito passei a mão pelo colar que trazia no pescoço. A lua estava a tornar-se cada vez mais escarlate. O eco daquela noite debatia-se ainda na minha mente. Eu precisava de sangue. Abri as mandíbulas com o intuito de as enterrar no teu pescoço e elas fecharam-se num beijo suave. Separámo-nos num impulso e passaste a mão no pescoço, limpando apenas a marca do meu batom de cereja.

Virei-te as costas e corri.

É difícil controlar certos impulsos. Eles simplesmente dominam-nos. Despertam desejos que queremos esconder nos confins mais profundos do nosso corpo. O meu desejo por ti é algo que deixou de ser uma fome intensa por sangue, passou a ser algo intimamente pessoal e que mexe com os sentimentos humanos que ainda incendeiam a minha pele. Não valia a pena ter-te pedido desculpa antes de fugir. Sei que virias a correr atrás de mim como já havia feito contigo naquela noite.

E se um dia parássemos de fugir um do outro?

Cláudia de Lioncourt

Pétalas de Memória

segunda-feira, 20 de Julho de 2009


Como um cadáver infame cuspido pelo mundo, permaneces fria e cruel.

Na rosa adormecida sob o teu peito, lágrimas que nunca germinaram dos teus olhos transparecem pelas pétalas num rio com rumo à nascente da probidade.

(arrepio...)

De ti nunca colhi um sorriso doce e sincero. Em ti nunca admirei um olhar gracioso e delicado. Em ti nunca circulou nas veias a paixão de um amor veemente e feroz como aquele que me agonizou noite após noite.

(agonia...)

Em vida nunca te conheci.

(desalento...)

Nesse teu corpo álgido e lívido, a tua máscara tombou num ténue pranto de uma alma esquecida.
Não...Já não és ninguém...

(cólera...)

Sim! Grito a tua partida.
Sim! Ao contemplar o teu rosto neste fúnebre cenário do nosso afogo, consigo decifrar em ti um sorriso de prazer, um olhar libertino e perverso à procura do meu fim.

(letargia..)

Oh não! Não tenho mais dúvidas - A primeira vez que a felicidade se apoderou do teu corpo foi quando partiste e me estilhaçaste a alma.

(auge...)

Vampyyri de Lönratt

(N.B: a foto publicada insere-se no âmbito de uma sessão fotográfica de Stephenie Morgan, cujo trabalho foi servindo de inspiração para alguns dos meus textos. este não foi uma excepção. ficam aqui registados os meus agradecimentos.)